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De novo Natércia Freire, a sua voz poética, que me acompanha desde a infância. Este poema Imaculado País, lembra um espaço-tempo solar, uma claridade quase perdida e que teremos de reinventar. Mas também lembra fantasmas que vagueiam no mundo da ilusão.

 

 

                                            Imaculado País

 

Imaculado, esse país que existe

onde os olhos procuram a saudade

e os cabelos da Lua se desatam.

 

Onde os salgueiros num amor de frio

se curvam a gemer para o seu rio.

Branco. Suave. Com vagares de sonho,

brincam meus filhos entre os bancos verdes

e os canteiros de flores bem repousados.

As janelas das casas estão fechadas

e cantam em surdina nos alpendres.

(Descem ao mundo as Sombras Bem-Amadas.)

O viajante pousa o seu cansaço e sonha docemente.

 

Nossas Irmãs de infância, num sorriso,

com dedos de alma e paz traçam consolos.

(Fomos de bibe ao Grande Paraíso

mas acordámos logo.)

 

Museus e livros, em poeira casta

esperam a voz das interrogações.

(Os guardas desconhecem os fantasmas.

Nossos corpos se envolvem de algodões.)

 

E em vozes longas, através as noites,

brilhamos luzes de onde para onde.

 

            Imaculado, esse país que existe,

            envergonhado e tímido se esconde.

 

 

 

Descobri este poema na Obra Poética - vol. I, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. E no vol. II, este Que Sei Não Entendo.

 

                                               

                                        Que Sei Não Entendo

 

Noite velha,

Uma voz que não diz som.

Madrugada,

Uma voz que não diz paz.

Uma luz, que não diz

Nem cor nem som.

Um chegar.

Que em partida é já fugaz.

 

Um deserto,

           A cidade abandonada.

A prisão,

           Que ninguém vem visitar.

A mulher,

           invisível e parada,

Na morada

           De uma Pátria a flutuar.

 

Um destino

Infinito sem manhã.

Um falar

Que ninguém ouve jamais.

 

Uma carta,

Outra carta, sempre vãs,

Sempre iguais, sempre iguais

E sempre iguais.

 

Morro todas

As mortes inocentes.

Morro todas

As mortes à traição.

 

O que sei, não entendo.

A minha liberdade

Não a vendo

Por qualquer ilusão.

 

 

Este é francamente cinematográfico e aquelas expressões tão poéticas e sugestivas, como Noite velha... Um chegar... A cidade abandonada... A mulher, invisível e parada... Uma Pátria a flutuar...

 

 

publicado às 02:00


6 comentários

Sem imagem de perfil

De mdosoll@live.com a 06.06.2009 às 22:53

Belas escolhas Ana.

[E é um gosto grande vê-la no branco no branco. Ando pouco ou nada produtiva. Um dia destes passa. Espero]
Um beijinho

:)))
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 06.06.2009 às 22:58

Mdsol, qualquer post seu é uma obra de arte!
Inspira-nos e ilumina-nos! E não sou só eu que o digo!
Por isso gosto muito de passar por lá de manhã, para iniciar bem o dia!
Beijinhos!
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De mdosoll@live.com a 07.06.2009 às 20:38

Só vim aqui deixar-lhe um beijinho.
Estava a divertir-me com as declarações. Mais nada. Já parei. Quanto a mim a história destas eleições e das suas consequências está feita.
Beijinhos Ana. E muito obrigada pela su apresença tão serena. Faz bem, sabia?
:))))
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 07.06.2009 às 22:43

Obrigada, Mdsol!
Então é recíproca a boa influência (um grande sorriso...) pois a sua luz matinal anima-me os dias!
Um grande beijinho, agora já com mais esperança!
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De José Borges a 21.06.2009 às 04:01

Ah! Natércia Freire...
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 21.06.2009 às 08:59

Sim, Natércia Freire...

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